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A vida na Terra

Domingo, 22.09.13

 

Poderão achar estranho escolher o dia das eleições alemãs para me despedir d' As Coisas Essenciais. Bem, as coisas essenciais permanecem connosco pela vida fora. Como aqui ao lado podem constatar, nas palavras-chave, dediquei aqui posts a: vida, afectos, amor, amizade, autonomia, liberdade, responsabilidade, verdade, blogosfera, cidadãos, música, cinema, ... 

 

As coisas eseenciais variam conforme a consciência de cada um, e a consciência de cada um depende da cultura e subculturas e das suas experiências, interacções, oportunidades.

Podemos, no entanto, encontrar coincidências na lista das coisas essenciais que são comuns à generalidade das pessoas: saúde, afectos, alegria, convívio social, integração social, segurança, etc.

 

A cultura dominante actual coloca algum ênfase nas coisas como objectos, exteriores à consciência - dinheiro e o que se pode obter -, ou na aprovação social - fama, sucesso, estatuto, poder. É o que vemos circular cada vez mais nos media actuais, apesar da evidência desta cultura estar em profunda contradição com as novas capacidades para enfrentar os desafios que nos esperam. Desenham-se novas culturas paralelas à cultura dominante, a nossa incrível capacidade de adaptação. Se tudo correr bem, os choques culturais que se avizinham serão amortecidos por esta adaptabilidade e criatividade da consciência.

 

Tudo isto para vos dizer, queridos Viajantes que por aqui têm passado, que este dia é um sinal de alarme para a Europa e para os países do sul. Sim, também falei aqui em sinais de alarme. A cultura metálica do pragmatismo dos negócios e das finanças está a sobrepor-se há muito na Europa a uma cultura de convívio saudável, de equilíbrio desejável entre os estados-membros. Vimos desrespeitar Tratados e Acordos, saltar Referendos, calar a voz dos cidadãos (há muitas formas de os calar, sabiam?, perguntem aos media, basta repetir o que lhes dão a mastigar e a ruminar todos os dias).

Qual a resposta mais saudável e eficaz a esta cultura bárbara do poder do mais forte sobre o mais fraco? Usar a consciência, os neurónios, o bom senso, na pequena margem de liberdade que ainda nos resta. Usar o talento natural de cada um numa tarefa comum. Comunidades que se expandem, que ultrapassam fronteiras, limites. Trocar informação útil para todos. Criar, construir, unir, animar e reanimar.

 

Continuarei a navegar no Rio sem Regresso, o meu primeiro espaço na blogosfera e de que nunca consegui afastar-me muito tempo. Nesse rio a vida é revelada através do cinema. Gostaria de agradecer ao Sapo por tê-lo acarinhado desde o início, e ao Pedro Correia, primeiro através d' A Melhor Década do Cinema no Corta-Fitas e depois no Delito de Opinião. Lembro aqui ainda João Carvalho, um dos mais amáveis bloggers que encontrei na blogosfera, a cultura da amabilidade.

 

Podem continuar a acompanhar-me no espaço iniciado recentemente, A Vida na Terra, onde procuro lembrar e celebrar o facto de habitarmos este maravilhoso planeta e a oportunidade de aprender a conhecê-lo melhor e às restantes criaturas e espécies. 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:29

As mulheres e o seu papel fundamental nos valores culturais de uma comunidade

Domingo, 05.05.13

  

Este post é dedicado às mulheres, às mulheres que seguem os valores da verdadeira responsabilidade por si próprias, pela defesa do seu lugar e papel numa comunidade e país, na forma como lidam com os mais próximos, pelos valores que transmitem aos filhos.

 

Contrariamente ao que se julga, aceitar a própria vulnerabilidade e desamparo, é o primeiro passo para a verdadeira autonomia. E é a forma saudável de não se deixar entalar no papel de vítima.

A vítima receia o agressor, é o medo que a transforma numa vítima.

Quando uma pessoa aceita a sua própria fragilidade e é capaz de ultrapassar a tentação de se identificar com os falsos heróis como compensação, torna-se mais forte e vacinada contra a vitimização (conformismo).

É na sua capacidade de empatia com os outros seus iguais no desamparo e na fragilidade, próprias da sua humanidade, que se torna mais forte e vacinada contra a lógica da violência, a sedução de discursos competitivos e bélicos, e distingue perfeitamente a mentira (artificialidade) da verdade (autenticidade).

 

A história está cheia de mulheres que seguiram a lógica do poder através do filho, incutindo-lhe os valores da cultura do egocentrismo, do culto do herói, da competição em que só o mais forte sobrevive. No fundo, o seu amor maternal é contaminado e adulterado pela manipulação, pela linguagem do poder. Assim se explica o sentimento de posse, o filho é um prolongamento de si, não é um ser livre.

Também o fazem através do exemplo que dão às filhas, de alguém que se rendeu à lógica do poder e o utiliza na forma em que se tornou especialista: na manipulação, no sentimento de posse. As filhas, também elas, se renderão ao culto do herói (e da heroína que o manipula).

Hoje vemos uma transição: enquanto as suas mães utilizaram a sua imagem (aprovação social) e culpabilizaram os homens e filhos de não serem suficientemente homens, de não conseguirem a tal promoção, etc, exibindo o homem e os filhos como troféus, as suas filhas levaram esta cultura mais longe utilizando-a na promoção da sua carreira profissional, mimetizando o papel competitivo masculino.

 

Se estas foram as únicas possibilidades de sobrevivência das mulheres num mundo masculino? Certamente. Mas será que hoje a lógica do poder e da manipulação são formas saudáveis de afirmação do papel da mulher?

Lembrar que hoje temos um lugar e um papel na comunidade, podemos intervir e participar, porque muitas mulheres se colocaram em perigo e foram afirmando a sua voz sem seguir a lógica do poder, sem perder a capacidade de empatia e compaixão.

As mulheres podem participar numa mudança cultural profunda, tal como esta corajosa advogada iraniana Shirin Ebadi:

 

 

 

 

As mulheres podem perpetuar a linguagem do poder masculina através da influência cultural sobre os filhos, nos rapazes sobretudo, mas também nas filhas, ou podem romper com essa lógica dominante e cultivar a cultura da colaboração, do respeito por si próprio e pelo outro, da empatia e compaixão, da verdadeira autonomia.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:42

Que valores estão as mulheres na política activa a defender?

Domingo, 21.04.13

 

Num recente programa Política Mesmo da tvi 24, com Paulo Magalhães, 4 deputadas, Francisca Almeida do PSD e Teresa Anjinho do CDS/PP de um lado, Marisa Matias eurodeputada pelo BE e Paula Santos do PCP do outro, ainda pensei: para variar vamos ver o que estas mulheres têm para nos dizer, já cansa ouvir só homens e debates entre egos masculinos. Mas mal sabia eu a decepção que iria ter... 

 

Francisca Almeida, deputada do PSD, com a sua voz estridente que se deve ouvir nos cantos da sala da assembleia, com argumentos bem assimilados tipo propaganda governativa e a papaguear mais alto do que as adversárias, uma estratégia tão cara aos deputados da assembleia mas insuportável num debate para espectadores que querem ser informados, revelou estar apenas preocupada em defender o seu lugarzinho no parlamento e em defender o chefe.

 

Teresa Anjinho, do CDS/PP, parecia uma bonequinha de plástico muito in num certo meio e muito bem comportadinha (o nome fica-lhe bem), um exemplo de mimetismo social (a personagem que me surgiu foi Leonor Beleza) de que sofrem os políticos e todas as pessoas com ambições sociais: imitar o mentor idealizado, uma necessidade de aprovação social e o discurso certo para o efeito. Caricata a elaboração da sua pergunta à eurodeputada do BE em que inclui a resposta na própria pergunta, com o seu ar autoritário. De resto, apenas retórica e propaganda.

 

Na verdade, depois de as ter visto e ouvido pela primeira vez, verifico que não estamos perante mulheres já feitas, autónomas, corajosas, e que sabem pensar pela sua própria cabeça, mas debutantes mimadas, que nada sabem da vida, das pessoas que dizem representar, do país que dizem defender, e que dependem da sua capacidade de agradar ao seu grupo de referência (aprovação social). Uma verdadeira decepção.

Como um dia as duas irão verificar, quando adquirirem alguma maturidade, estão culturalmente obsoletas, cada uma no seu género e no que representa, renderam-se à linguagem do poder essencialmente masculina, do mais forte a submeter o mais fraco, considerando normal e saudável a manutenção da cultura da caridadezinha, da vocação assistencialista do Estado. Falam de emergência mas sem qualquer emoção. O que as move é apenas garantir o pagamento do empréstimo aos credores, por mais agiotas que se revelem actualmente.

 

Do outro lado: Paula Santos, do PCP, também desconhecida para mim. Embora tenha dito uma ou outra verdade e embora revele saber o que está em jogo, o seu enquadramento político está desactualizado. Mas foi dela o punch certeiro a Teresa Anjinho e a Francisca Almeida desmontando a sua perspectiva caritativa e assistencialista. Aqui esteve perfeita: de facto, podemos dizer que esta é uma questão de classes, os grupos privilegiados (banca, grandes grupos económicos), contra o resto da população portuguesa. Revela conhecer de perto a vida diária dos cidadãos, as dificuldades sentidas nos hospitais, nas escolas, os cortes nos subsídios de desemprego, as dificuldades das famílias, e que seria essencial valorizar salários e pensões para dinamizar o nosso mercado interno, assim como as pequenas e médias empresas, etc.

 

E finalmente Marisa Matias, eurodeputada pelo BE, a única com quem consegui sentir uma afinidade cultural, a única que se revela empenhada num propósito maior do que o seu ego, e isso percebe-se desde logo pela informação de que dispõe, pelo entusiasmo genuíno, pelos argumentos fiáveis e baseados no essencial. Revelou estar bem informada sobre o que está a acontecer na Europa e no país e saber exactamente o que está em jogo.  Revelou aqui verdadeira empatia com os cidadãos, percebemos que não é retórica nem simples propaganda. É uma mulher de acção. Já a conhecia de uma reportagem sobre a sua intervenção no parlamento europeu, em que ficamos inspiradas sobre o que uma mulher pode fazer para exigir uma informação correcta, a defesa dos cidadãos europeus negligenciados, a divulgação de autênticas situações de crise humanitária. Uma mulher feita, que pensa pela sua própria cabeça, que tem os neurónios a funcionar, a empatia a funcionar, a capacidade de agir de forma inteligente e consequente. Só uma mulher autónoma, que sabe observar e intervir, pode inspirar-nos, mulheres, a observar e participar. E qual foi a informação crucial que esta eurodeputada nos trouxe? A seguinte:

Passou em votação no parlamento europeu um Relatório de actividades do BCE com um parágrafo com uma recomendação para reverter para os países intervencionados as suas mais-valias com a dívida desses países: 3 mil M€/ano. Dá para acreditar? (Já Francisco Louçã, aliás, o tinha revelado no dia anterior no mesmo programa da tvi 24, ao apresentar o livro Isto é um assalto, que só com a dívida portuguesa o lucro do BCE corresponde a 1,5 mil M€/ano).

E sabem quem votou contra? Precisamente: os eurodeputados do PSD e do CDS.

Está tudo dito.

 

 

Quanto à análise que aqui deixo sobre as mulheres: a questão aqui não é o partido x ou y, a questão é:

Que valores estão as mulheres na política activa a defender?

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:20

A linguagem do poder da troika e do governo: consenso alargado = suicídio colectivo

Sexta-feira, 19.04.13

 

A linguagem do poder tem várias estratégias para conseguir impor a vontade de muito poucos sobre muitos outros. Vem nos livros. Uma delas é manifestar publicamente por palavras a vontade de ouvir o adversário ou alguém que é percebido pela opinião pública como adversário (pois, como sabemos, todos os partidos fazem parte do mesmo sistema).

Outra estratégia que o governo utiliza é a chantagem da troika, não há medidas (cortes nos mesmos) não há dinheiro, para justificar a necessidade de um consenso alargado. Consenso para eles é consentimento, claro. Para os cidadãos é o suicídio colectivo.

Outra ainda, o marketing político e a propaganda a substitur a verdade, nas televisões sobretudo, mas também noutros meios de comunicação.

 

 

Já identificámos aqui 3 estratégias da linguagem do poder:

 

- utilizar termos que parecem significar abertura, flexibilidade, cultura democrática, mas que pretendem exactamente envolver o outro, implicá-lo nas suas decisões, comprometê-lo em termos de responsabilidade assumida. Aqui surge o termo consenso alargado. Consenso no dicionário dos sinónimos = acordo; anuência; aprovação; assentimento; beneplácito; consentimento; parecer; praz-me; unanimidade. Está tudo dito. Se o objectivo fosse a tal abertura e flexibilidade relativamente à escolha das medidas a aplicar, revelando uma cultura democrática, o termo adequado seria negociação, por exemplo; 

 

- colocar as suas decisões numa posição de força e de chantagem: não há medidas (cortes nos mesmos) não há dinheiro, tentando manter os cidadãos apreensivos, com receio do futuro, instilando o medo para conseguir aceitação e obediência acrítica; 

 

o marketing político e a propaganda martelada nas televisões, com a aparência de debates entre posições ligeiramente diversas para confundir os espectadores e levá-los a aceitar as suas opiniões e decisões como as correctas e as inevitáveis. Em vez de uma informação fiável, temos a propaganda a substituir a verdade. Embora não seja apenas a televisão o meio de comunicação utilizado (a internet já está atafulhada de propaganda governamental), a televisão ainda é o meio privilegiado da propaganda, pois os cidadãos do país ainda a utilizam como a principal forma de se manter informados (basta ver uma das antenas abertas).

 

Exemplo: analisem a diferença de discurso de Manuela Ferreira Leite, num espaço muito curto de tempo, isto é, de dia 11 para dia 18, nestes 2 vídeos do programa Política Mesmo da tvi24:

- no primeiro, a entrevista de dia 11, Manuela Ferreira Leite faz uma radiografia bastante fiel da nossa situação actual, refere-se a um harakiri colectivo (o tal suicídio colectivo), e procura informar sobre a nossa situação concreta, mostrando os malefícios da política de austeridade como nos foi imposta pela troika e pelo governo nestes dois anos, na economia e nas vidas dos cidadãos, mas também porque, apesar dos sacrifícios dos cidadãos, não se está a reduzir nem a dívida nem o défice;

- no segundo, o primeiro programa já como comentadora-política-económica, muda de registo para um discurso em termos completamente diversos, quase nos apresenta de um futuro risonho com a simples entrada destes 2 ministros que vieram substituir o ministro-bode expiatório. Dá para acreditar? Manuela Ferreira Leite, a referência da política de verdade, subitamente convertida à fé governamental, embora nos diga que a sua opinião é subjectiva pois é amiga de Marques Guedes e sabe que é dialogante (?), e ouviu dizer que o ministro Maduro é um académico brilhante  muito considerado internacionalmente e que vai sensibilizar os tecnocratas europeus (!?) Reparem também no jornalista Paulo Magalhães, primeiro perplexo, depois inquieto, finalmente aflito. Será que Manuela Ferreira Leite se irá converter num segundo Prof. Marcelo? Espero que não, pois uma política de verdade é raríssima no país.

 

 

 

Para começarmos a duvidar se não terá ficado tudo ao contrário, aparece um Francisco Louçã subitamente calmo e sensato, embora muito entusiasmado, a falar do livro de bd, Isto é um assalto (Saída de Emergência). Verificamos que é muito melhor como autor-professor do que como dirigente político. Muito interessante e esclarecedora a descrição da nossa história financeira. Ficámos a perceber as relações do poder político-poder financeiro, quem ganha com a nossa desgraça (com os juros da nossa dívida). Vale a pena ver o vídeo relativo a ontem, dia 18, mas ainda não o encontrei.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:05

Volto a esse rio neste Natal...

Sábado, 15.12.12

 

A minha aventura blogosférica iniciou-se a navegar num rio sem regresso. O cinema como metáfora da vida. Porque o importante é a vida, o importante são as pessoas.

 

Nesta época do Natal, que sempre senti como a época dos afectos, vou dedicar-me nesse rio aos valores humanos fundamentais. Os valores humanos combinam muito bem com o Natal, a época em que nos reencontramos com a nossa própria infância, mesmo que através dos filhos, sobrinhos, netos.

 

Comecei com a liberdade, aqui ligada à justiça e à verdade mas, de certo modo, todos os valores humanos têm origem numa mesma base: o amor, a fraternidade, a empatia. Vermos no outro um outro eu, colocarmo-nos no seu lugar, vermos a sua perspectiva, sentirmos a sua aflição como nossa. 

É verdade que nem todos têm esta capacidade. É próprio dos psicopatas, por exemplo, não sentirem culpabilidade pelo mal que infligem a outros. É a linguagem do poder.

 

Aqui vai hoje este filme, Mr. Smith Goes to Washington, que coloquei pela segunda vez a navegar neste rio.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:12

As pedras no charco

Domingo, 27.05.12

 

Há quem lhe chame pântano, mas a palavra está datada, por isso, escolho o charco. Charco é pouco mais do que uma grande poça de água, das que temporariamente se formam e que à vezes secam quase por completo, deixando ver os seres que o habitam a movimentar-se com uma lógica aparente. Podemos questionar: o que os alimenta? O que os faz mexer? Boa pergunta.

 

No charco a vida é comandada pela sobrevivência das espécies próprias de um charco. Num outro habitat estas espécies poderiam não medrar. Podemos então caracterizá-las como espécies que se desenvolvem em charcos, próprias de charcos. Certo?

Agora imaginem que estes charcos enquanto sistemas servem outros sistemas habitados por outras espécies, por exemplo, uma encosta de pedregulhos que protege o charco. Suponhamos que os ventos, outro sistema, mudam de rumo e a atenção deve recair não sobre essa mudança do vento mas sobre algum pedregulho. O pedregulho que se quer manter bem seguro na encosta terá toda a conveniência em ver cair as pedras soltas no charco, ups!, lá vai mais uma.

 

A mudança dos ventos, porque muito volátil e subtil, não chama a atenção dos observadores, talvez até por se tornar mais difícil de observar. Fica tudo a olhar para o charco e para as espécies que ali se movimentam.

Quem não quer alimentar esta lógica absurda de estar a olhar para um charco, deve seguir o seu caminho e procurar uma clareira amigável onde se respire ar mais puro e abrigado do vento, sobretudo dos ventos que só provocam a erosão.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:43

Empatia e compaixão, a base da autonomia

Domingo, 14.08.11

 

Arno Gruen, psicanalista que tem estudado os fenómenos de violência na sociedade actual, cita n’ A Traição do Eu Ortega e Gasset, que só acreditava em náufragos, para melhor nos esclarecer que só o indivíduo capaz de sentir a dor, a sua e a do outro, e sentir o desamparo, é capaz de empatia e compaixão, viver afectos genuínos, respeitar-se a si e aos outros.

Agora analisemos a questão nesta perspectiva: estão a ver um indivíduo com estas características adaptar-se bem a normas e a práticas organizacionais que se regem pela lógica do poder, alheias às pessoas, à sua vida, às suas necessidades, e quantas vezes, contra as suas vidas e necessidades vitais? Quantos episódios dramáticos já não ouvimos sobre indivíduos que, no limite, preferiram morrer a colaborar na destruição de outras vidas? São esses os náufragos de Ortega e Gasset: porque passaram pela dor do desamparo, sentem a dor de outros como se fosse sua (empatia), encaram a violência na perspectiva da vítima e a vítima é uma vida, tem uma história e um nome, é carne e ossos, sentimentos, emoções. Se lhes é pedido ou exigido que esqueçam esse pormenor – e a maioria das organizações rege-se por questões que desprezam esta realidade humana -, hesita, questiona-se, reflecte, mas não obedece de forma acrítica, fria, mecânica. A vida, o respeito pela vida, está acima de qualquer outro objectivo na sua escala de valores.

As organizações têm formas de o convencer, e é sempre na base do suposto bem comum, de horizontes mais vastos ou, quando essa argumentação falha, na base da ameaça velada, mas o nosso náufrago não se deixa convencer facilmente: a sua bússula interior resiste à manipulação exterior, por mais elaborados que sejam os argumentos. E se não estiver em condições de não obedecer, adoece: dores de cabeça, úlceras, fobias, ataques de pânico, neuroses, estados depressivos.

Precisamente: muitos daqueles que encaramos como doentes são aqueles que estão mais próximos da sua autenticidade. E muitos daqueles que consideramos saudáveis, porque se adaptam sem questionar às normas e práticas das organizações, são incapazes de sentir a dor do desamparo, incapazes de sentir empatia e compaixão. A sua estrutura, digamos assim, formou-se a evitar essa dor muito precoce, identificando-se, para se defender da vulnerablidade do desamparo, com o vencedor. Como se a vida passasse a ser uma questão de ganhar ou perder, vencer ou falhar. Como se as pessoas não fossem por natureza frágeis e vulneráveis, contraditórias e paradoxais, mas apenas vencedores ou falhados, os “nossos” e “os outros”. É evidente que aqueles que se regem por esta lógica do poder irão sentir-se atraídos pelo poder e vemo-los em organizações, em lugares de gestão ou a gravitar à sua volta.   

Pensem então por momentos nas implicações desta realidade: quem encontramos em lugares de poder, de exercer o poder, de decidir pelas nossas vidas, são muitos daqueles que se regem por normas e práticas alheias às nossas vidas, e, no limite, contra as nossas vidas. Dito assim, é assustador, não é? Agora tentemos transpor tudo isto para o que se está a passar no ocidente, sobretudo EUA e Europa. O que é que estes gestores do poder político e económico andaram a fazer? E o que é que insistem em continuar a fazer? A jogar com as nossas vidas, as vidas de pessoas reais, carne e ossos, sentimentos e emoções. Percursos e expectativas reais. Se as respeitassem diziam-lhes a verdade. Se as respeitassem reconheciam os erros e mudavam de rumo. 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:01

Uma escola de mulheres num mundo de homens?

Quarta-feira, 13.10.10

 

Este sim, seria o maior paradoxo. E a que propósito vem esta questão?

O Nuno, do Cachimbo de Magritte, o mesmo do sorriso do lobo, lançou o debate e nem sei se com destinatário... mas saltando esse pormenor provocador, a tese é interessante, no mínimo:

Num mundo ocidental em franca decadência (isto é absolutamente verdade, uma civilização caracteriza-se pelo pensamento e reflexão, cada vez mais ausentes deste mundo), as mulheres começam a ser bem sucedidas, muito melhor até que os homens em áreas académicas e científicas (a escola actual parece adaptar-se às raparigas e não aos rapazes, que revelam níveis de insucesso preocupantes).

A questão que o Nuno (o mesmo do sorriso do lobo, não esquecer) aqui coloca é em tom provocador:

Não acham que se verifica aqui "mundo ocidental em decadência - sucesso das mulheres", uma coincidência trágica?

 

O debate está aberto e até parece que se acendeu mais do lado dos comentadores homens. As mulheres parecem ter passado ao lado da discussão, afinal, se são bem sucedidas nesta escola para quê preocupar-se? (Glup!, já estou a ser mázinha).

É claro que esta escola não interessa. Esta universidade não interessa. Porque apenas reproduz em série o que antes se produzia em qualidade: o pensamento e a reflexão, a criatividade e a autonomia, a procura de novas soluções, novos caminhos.

O que a torna então mais atractiva e adaptada às raparigas, e afasta os rapazes? Coloquei a hipótese da maior facilidade das raparigas na comunicação verbal, pode ser uma das razões. Uma escola muito teórica, mas de onde o pensamento e a reflexão se tornaram quase ausentes, muito baseada na reprodução, coloca à partida os rapazes à margem, a meu ver. Eles precisam de ver a utilidade das coisas, das tarefas. Para que é que serve?, é a primeira pergunta no olhar de qualquer rapazinho. Qual é o interesse disto? Além disso, são muito visuais (e em tudo, já repararam?, mesmo na interacção social), precisam de ver os objectos e desinteressam-se dos signos, dos códigos descontextualizados.

As mulheres dominam claramente na linguagem e na abstração. Isso não as desmotiva. E, a meu ver, conseguem manter-se nessa tarefa de reproduzir mensagens durante mais tempo. Os rapazes desconcentram-se de tarefas desligadas de uma utilidade prática.

Outra enorme diferença: a actividade desportiva. Embora seja importante para rapazes e raparigas, para eles é fundamental. Murcham fechados numa sala o dia inteiro, esta escola que não contempla a sua necessidade de se expandir, medir forças, exercitar os seus limites, não lhes interessa.

E de facto não interessa. Não está adaptada ao desenvolvimento integral de uma pessoa, homem ou mulher.

 

Mas não tenhamos dúvidas. O mundo ainda é dos homens, as mulheres apenas seguem as suas pegadas, sobretudo na sua colagem acrítica à linguagem do poder. Descobriram o seu encanto, embevecidas com a sua auto-importância pueril. Ter a fama temporária, os prémios temporários, as luzes da ribalta, já dá para adormecer a consciência, não dá?

Um mundo dos homens, mas de que natureza? Um mundo cada vez mais frio, metálico, cínico, boçal, e misógino. Logo aqui, ficam de parte os homens e as mulheres comuns, os que ainda se movem pelos afectos, a empatia, a consciência de pertencer a um universo mais vasto, de outros homens e mulheres como eles, capazes de empatia.

E aos homens e mulheres no poder, interessa-lhes que as pessoas comuns sintam, pensem é reflictam? É claro que não. A escola, a universidade serve para isso, para formatar as pessoas comuns. Aos melhores na escola e na universidade, dá-se-lhes um rebuçado, um lugar, um prémio, e estão dentro do esquema, do seu círculo. Os que pensam pela sua própria cabeça são perigosos, criam-se-lhes obstáculos, fecham-se portas. É assim.

 

Como sair desta lógica decadente, desta organização concebida e formatada para uma elite poderosa que quer manter o seu estilo de vida e que, para isso, lhe convém manter milhares na mediocridade de vidinhas sensaboronas, em trabalhos repetitivos, em subúrbios cinzentos, a pagar impostos?

Só pelo pensamento e pela reflexão, pela empatia e a linguagem dos afectos, pela consciência de pertencer a uma comunidade mais vasta. Só pela capacidade de se distanciar das vozinhas enganadoras e sedutoras: compre isto e aquilo... veja este e aquele programa... esta e aquela telenovela... vote neste e naquele... e terá uma vida de sucesso...

 

As mulheres são co-responsáveis pela perpetuação desta lógica decadente da linguagem do poder, segundo Arno Gruen, que não me canso de citar: afinal, não são elas as mães? É por essa primeira relação afectiva, privilegiada, única, que tudo começa, não é?

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 06:37

O sexo está para o poder como o amor está para a autonomia

Terça-feira, 29.06.10

 

A regra das equivalências também podia ser: O sexo está para o sentimento de posse assim como o amor está para a liberdade. Ou ainda, o sexo e o ódio andam de mãos dadas, o amor só dá as mãos à tristeza e ao desamparo; o sexo está sempre insatisfeito, o amor pré-existe e preenche tudo, a ausência e a perda.

Mas, claro!, falar de amor é piroso e antiquado. E certamente não serão os psicólogos e sociólogos modernaços, nem os que promoveram o sexo a tema científico, os sexólogos, a falar de amor. Na verdade, desconfio que de amor não percebem nada. Mas percebem de poder, da linguagem do poder, da sedução e manipulação, dos jogos e jogadas pouco limpas, não são eles os defensores de na guerra e no amor vale tudo?, de que amor estão aqui a falar quando equiparam amor a guerra?, não é de ódio que se fala aqui?, de poder?, de ganhar e perder?, de troféus?

 

Pois é, na ausência de amor falam muito de sexo.

Mas não se ficam por aqui. A perspectiva deles é a correcta. E querem impo-la aos restantes, às crianças. E o que lhes querem impingir é da maior pobreza de espírito que alguém poderia imaginar: vejam isto! Dá para acreditar?

Fazem bem os pais em reagir a tempo.

 

Uma criança tem uma capacidade quase infinita de observar o mundo e os outros. E uma curiosidade insaciável. Faz perguntas, algumas verdadeiramente incómodas para os pais. Que lá lhes vão respondendo como acham que será mais correcto e adaptado à idade dos filhos. São eles que melhor os conhecem, cada criança tem as suas particularidades: umas mais palradoras e expansivas, outras mais tímidas e reservadas, umas mais sociáveis, outras mais recolhidas no seu cantinho.

É nestas fases das perguntas sobre o corpo, como nascem os bébés, que os pais, se assim o entenderem, podem recorrer a apoio de amigos ou de psicólogos (evitar os modernaços) sobre a melhor forma de responder à sua criança, àquela criança em particular e à sua curiosidade.

A criança começará a visualizar uma parte da vida de forma natural, associada aos afectos, às emoções, aos sentimentos, à semelhança dos pais e dos adultos que passam lá por casa. No início esse mundo dos adultos, do quando eu for grande, é vivido de forma muito fantasiada e criativa, mas essa é a perspectiva da criança, que tem o direito de criar e construir o seu mundo e não ser confrontada com a pobreza mecanicista dos adultos, a aridez da ausência do amor dos adultos.

 

No fundo, é isto o que estes pedagogos modernaços socialistas, apoiados pelos psicólogos e sociólogos modernaços como eles, querem impor à criança: o seu modelo de vida mecanicista e artificial em que o sexo ocupa o lugar do amor, o poder ocupa o lugar da autonomia, o ódio o lugar do desamparo.

Aqui o sexo é mostrado à criança na sua crueza e artificialidade mecânica, destruindo de uma penada a riqueza da fantasia infantil. Bonito serviço! Nem precisamos de nos apoiar numa visão filosófica cristã, nem nos valores católicos, basta-nos a sensatez de psicólogos, pediatras, psicanalistas e sociólogos saudáveis. E quem são? Os que vos falam de amor sem qualquer vergonha. Os que vos falam de afectos, de emoções e sentimentos. Os que vos falam em promover a autonomia aliada à responsabilidade. Que sabem que a criança tem direito a crescer de modo saudável e equilibrado, a descobrir o mundo pelos seus olhos e inteligência, sem se ver condicionada à pobreza de espírito deformadora.

 

Já viram bem quem são os Conselheiros do Sexo? Os que são promovidos nas televisões, revistas e jornais? Parecem-vos criaturas equilibradas e felizes?, sensatas e autónomas? Não vos soam, pelo contrário, perfeitamente pueris e artificiais? Servem essas criaturas de modelos de adultos para as vossas crianças e adolescentes? Se vos faltassem mais argumentos, este vos bastaria para encarar de frente, sem se sentirem intimidados, a Obsessão Sexual que querem impingir às vossas crianças na escola pública. Este vos bastaria para a defesa intransigente das vossas crianças desta pedagogia doentia.

 

Nesta sobrevalorização do sexo há lugar para os acessórios, os gadgets, as sex shops, os truques para aumentar o desejo (!), para uma vida sexual satisfatória e gratificante (!!), muitas vezes receitas da transgressão que mais não são do que receitas da manipulação (!!!), mas não para o verdadeiro motor da vida, o amor, nem para a lógica do amor, a vida. Andam juntos.

Seguem, no fundo, uma pedagogia milenar e nem se apercebem: os gregos estão aqui, a sua decadência e pobreza na expressão e experiência dos afectos mas especialistas na manipulação mais boçal. Também os franceses estão aqui, os da escolinha das mulheres, que pretendem libertar (?) da dominação masculina (??), só para as escravizar ao prazer fortuito e vazio.

E até me admira - e aqui vai a polémica possível - que as mulheres adiram a esta pedagogia modernaça misógina socialista, que abomina a maternidade, chama-lhe reprodução, abomina tudo o que nos lembra a origem da vida. Só mulheres que esqueceram a sua maior dádiva, a possibilidade de gerar vida, de a trazer consigo, de a ver no mundo, é que podem aderir a esta pedagogia modernaça. Só mulheres sem auto-estima se podem deixar assim converter (e ajudar a perpetuar) à linguagem do poder.

 

 

 

E aqui está a Petição Contra a obrigatoriedade da Educação Sexual no Ensino Público.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:29

Viagem no tempo-espaço com um ramo de oliveira

Terça-feira, 30.03.10

 

Esta é a minha semana preferida do ano, a que vai do Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa. Assim como o meu mês preferido é o Maio florido. E a estação do ano, a Primavera. E a flor, a rosa frágil e efémera, mas tão perfumada, de Santa Teresinha.

Num tempo em que se desvalorizam os símbolos, os rituais a marcar o nosso percurso, a dar-lhe um ritmo e um sentido, e a lembrar-nos a nossa condição frágil e transitória, mas única e irrepetível, mantenho só para mim os meus próprios marcos. E esta semana é um deles.

E não consigo evitar, tal como o protagonista do Life on Mars, viajar no tempo até essa Páscoa nos finais dos anos 60, em que levei um ramo de oliveira, tal como todos nesse Domingo levaram, nesse Domingo de Ramos.

Eu era, digamos, o que se pode chamar uma criança impressionável, levava tudo muito a sério. Vivia a realidade como se fosse um filme e via os filmes como se fossem realidade. Aquele ramo de oliveira simbolizava a paz. Protegi-o como a uma preciosidade.

 

Hoje, depois do regresso no tempo-espaço, vejo o terrível paradoxo da natureza humana nesse percurso de Cristo, aclamado e acarinhado pela multidão, para pouco tempo depois escolherem Barrabás. Este é um dos dilemas da natureza humana.

O próprio percurso de Cristo, nesse período, revela-nos, de certo modo, a história humana que se repete pelos tempos sem fim todos os dias e em todos os lugares do mundo. Revela-nos que a paz é efémera, um impulso frágil, um entusiasmo. Como se as pessoas não conseguissem nela permanecer por muito tempo ou não conseguissem coabitar sem conflitos. Cristo foi acarinhado pela multidão nesse dia de ramos... para, na hora da verdade, em que a paz era mais necessária, o discernimento, a consciência, a empatia, ser esquecido e abandonado.

Esta é uma visão muito simplista da história, eu sei, Cristo tornou-se incómodo para os representantes religiosos (esqueço-me sempre dos termos correctos, enfim, para a hierarquia religiosa, os sábios, os doutores, que um dia o tinham ouvido em menino no templo). A sua mensagem comprometia a sua posição, tal como hoje, os representantes da hierarquia, e já nem me refiro apenas à Igreja que até tem insistido nisto, mas ao poder temporal. Preferem calar a escravização em curso do povo que supostamente representam porque os elegeu, a perturbar a lógica injusta e ilegítima de privilegiados (a "nova elite") e escravos (o contribuinte de fracos rendimentos e o reformado indefeso). Sim, a mensagem de Cristo comprometia a diplomacia conveniente com o poder de Roma.

 

Mesmo que Cristo tenha definido as fronteiras naquela frase A César o que é de César, a Deus o que é de Deus, não se submeteu à lógica da linguagem do poder, colocou-se num plano imune a essa lógica terrena, o seu reino não era deste mundo, e isso era incompreensível, inaceitável. Ainda hoje me interrogo: a que é que Cristo se referia, em que plano ou dimensão, quando define aquela fronteira enigmática?

Inclino-me a pensar que essa frase ainda hoje é mal interpretada por muitos. Porque a mensagem de Cristo compromete, desde logo, esse limite, ao colocar todos na dimensão de filhos de Deus, todos, sem excepção, numa irmandade igualitária. Isto implica a libertação da escravidão, a sua mensagem não pode conviver com donos e escravos, com a linguagem do poder. E os homens que espalham a mensagem não podem ficar indiferentes a essa lógica que escraviza, simplesmente não podem. A sua mensagem também implica a dignificação da vida de cada um, como única, preciosa, irrepetível. Novamente, o que fazeis ao mais pequeno de vós é a mim que o fazeis.

 

Mas poderia a frase significar que estes dois planos, o terreno e o divino, nunca se encontram, nunca coexistem? E, tal como no filme Rio sem Regresso, quando Marilyn sonha viver num lugar onde as pessoas sejam tratadas como seres humanos, Robert Mitchum responde: Isso é no céu...? Como se não fosse possível viver essa paz e respeito mútuo no plano terreno? Mas não faz sentido. Essa é a lógica do mártir, e ficaria por aí, pela sua afirmação libertadora através da sua morte, e pela repetição de martírios sem fim à vista que não seja perpetuar a vítima e reforçar o poder do predador. Já para não falar dos mártires de que não sabemos, essa pena máxima silenciada, sem julgamento sequer...

 

E tudo isto num simples ramo de oliveira que levei nesse Domingo de Ramos numa Páscoa de finais dos anos 60...

É por tudo isto que em vez de paz prefiro dizer empatia, porque é a capacidade humana de sentir o que o outro sente, a única que permite essa libertação da lógica da linguagem do poder, que cria conflitos porque não sabe (não pode) viver em paz, porque precisa de dominar e manipular para preencher o seu vazio interior, porque é o ódio e a morte que o motivam (e que também definem a sua acção).

E sim, é possível aprender a viver na cultura da amabilidade na diversidade. E sim, é possível identificar as sementes de violência e os "falsos deuses" que dela se alimentam. E sim, é possível a responsabilidade individual, cada um no seu papel, na colaboração mútua. E sim, é possível uma nova organização social mais livre e, ao mesmo tempo, mais equilibrada e justa e, por isso mesmo, mais inteligente também.

 

 

 

Também aqui: sobre a composição de Jesus Christ Superstar.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:01








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